jmahfus@hotmail.com

quarta-feira, 20 de abril de 2011

LEI CARRION

Do site www.perestroika.com.br/2011/04/20/carrion-what-a-bullshit/

Ontem, a Assembleia gaúcha aprovou uma lei esdrúxula contra uso da língua inglesa. O texto diz que, a partir de agora, é obrigada a tradução para o português de expressões estrangeiras em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul, sempre que houver em nosso idioma palavra ou expressão equivalente.

O autor se chama Raul Carrion (PC do B), que, para defender seu ponto de vista, usou o infeliz exemplo de que um diabético mais desatento corre risco de vida ao confundir os termos diet e light. O que vemos hoje são palavras consolidadas sendo substituídas por modismos, macaquices e papagaiadas de gente que despreza o português e se sente melhor usando o inglês, sem às vezes nem saber pronunciar.

Carrion (e todos os 26 Deputados que votaram a favor) está ignorando aspectos da vida contemporânea para defender sua tese. Vamos a alguns deles:

1) A língua é, muito antes de ser um patrimônio cultural, um INSTRUMENTO DE COMUNICAÇÃO. Muito antes de ser motivo de orgulho para um povo, ela é uma ferramenta para facilitar a vida das pessoas. E se os termos ingleses ajudam nisso, não me venham com bullshit (s. 1. Cocô de boi. 2. Bobagem). Por que não podemos usá-los de forma coerente?

2) Essa Lei vai totalmente contra o momento de desenvolvimento pelo qual o Brasil passa. Com cada vez mais consumo das classes baixas, com cada vez mais internet para todo mundo, termos como Download (v. 1. Processo de descarregamento de arquivos no seu computador), Login (v. 1. Ato ou ação de entrar com seu usuário e senha para identificação quando da entrada em algum ambiente digital) ou Trend Topic (s.+a. 1. Assunto destacado deliberadamente pelos usuários do Twitter, indicando quais são os assuntos mais discutidos nesta rede social) vão cair na boca do povo naturalmente. O mundo inteiro vai falar de um jeito e SÓ A GENTE vai falar de outro. Meio provinciano, não?

3) Carrion certamente ignora um fato importante: a Internet está na sua terceira onda. A primeira foi a dita Internet 1.0, onde a linguagem foi determinada pelos early adopters (s. + a. 1. Pessoas de vanguarda que, por essa característica, assimilam as mudanças de comportamento antes dos demais) mas consumida pelo grande público, dando origem a uma estética meio esquizofrênica. Depois, veio a Internet 2.0, quando o usuário comum virou heavy user (s. + a. 1. Pessoa que consome determinada referência/produto/plataforma/marca numa taxa muito mais alta que a média), a Internet ganhou uma estética/conduta própria. Mas aí, veio a terceira onda, que é a que estamos vivendo: a linguagem da internet agora saiu do computador e influencia o comportamento offline (a. 1. Ato ou efeito de estar desconectado). Por isso, termos como #FAIL (v. 1. Falhar, ter um insucesso digno de destaque), #NOT (adv 1. Expressão que exprime negação, semelhante ao “não” da língua portuguesa) ou #ZANGIEF FACTS (s. 1. Fatos fictícios, de um personagem real ou não, construídos a partir da imaginação popular nas redes sociais, que o destacam da maioria dos mortais) não pertencem mais ao antigo internauta. Pertencem ao papo de boteco, ao xingamento no campo de futebol, à cantada na parada de ônibus.

4) Mais: o Brasil é, reconhecidamente, um País importante na economia mundial. Estamos fazendo negócios, debatendo, conversando, discutindo com estrangeiros nas mais diversas camadas da sociedade. Então, talvez a gente devesse fazer justamente o contrário: estimular o aprendizado do inglês e ter uma política séria de educação nas escolas públicas. Acho esse debate muito mais relevante, muito mais comprometido com uma sociedade melhor, do que a Lei em questão.

5) Por fim, para os que gostam de polêmica, o argumento mais radical. Existe um discurso bisonho que diz que “as crianças do futuro não vão saber escrever”. De novo: a língua é um instrumento de comunicação. Mas é, também, um organismo vivo. Quando os homens das cavernas começaram a usar o recurso da língua, ela era muito diferente do que é hoje. E talvez, num futuro próximo, a tecnologia nos permita usar a língua de uma maneira muito diferente dos tempos atuais. Eu inclusive acredito que o texto escrito vá quase sumir daqui 100 anos, já que as plataformas audiovisuais vão se sobrepor. Então, a gente não precisa se preocupar se as pessoas escrevem “vc” ou “pq”. Daqui alguns anos, isso talvez nem seja mais preciso. Faz parte de um processo natural.

Enfim: poderia falar muito mais sobre isso. Mas, sinceramente, acho que já ficou claro o ponto que defendo. Inclusive, acho que nenhuma pessoa em sã consciência consegue concordar com esse manifesto. Claro que existem exageros nos estrangeirismos e eles devem ser coibidos. Mas, definitivamente, não é com uma lei dessas que o Deputado Carrion e seus 26 aliados vão conseguir mudar o comportamento das pessoas.

Ouvi certa vez que “A Lei tem que servir ao Homem, não o Homem tem que servir à Lei”. Acho esse raciocínio perfeito. E acho que se aplica perfeitamente a essa discussão.

A língua é viva, a internet é orgânica, a vida é mutante. E elas são mais fortes que qualquer lei.

Elas é que são a lei.

Nenhum comentário: