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quarta-feira, 9 de março de 2011

A GUERRA NA LIBIA

Artigo de Clovis Rossi na FOLHA

Até ontem, essa pergunta pareceria provocação barata. Está deixando de ser, conforme o relato publicado ontem, na Folha-papel, por Marcelo Ninio, o correspondente em Jerusalém que está na zona de combates (do lado rebelde). Ninio foi o primeiro dos que li --e leio uma quantidade industrial de relatos sobre a situação --a alertar já na semana passada que a rebelião líbia poderia não ser um passeio no campo.

O relato de Ninio, de resto, é reforçado pelo dos enviados especiais de "El País", outro pessoal que faz um notável trabalho de campo.

Se é assim, a resposta mais óbvia à pergunta "e se Gaddafi ganhar" é: os Estados Unidos sairão desmoralizados.

O presidente de uma superpotência não pode dizer que um governante de outro país "tem que deixar o governo", sem utilizar todos os meios à sua disposição para transformar sua retórica em fato.

Entende-se por isso que a hipótese de implantação de uma zona de exclusão aérea voltou a frequentar o noticiário, depois de ter sido afastada a partir do alerta de que se trata de uma operação de guerra, com todos os riscos e consequência inerentes. Ainda na segunda-feira, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, fazia questão de lembrar que "uma zona de exclusão aérea não é um videogame".

O que ajudou a recolocar na agenda a "no-fly zone" é, de um lado, o apelo de um dos líderes rebeldes, Mustafá Gheriani, porta-voz do Conselho Nacional, o governo provisório armado precariamente na zona controlada pela rebelião: "Se a comunidade internacional não estabelece uma zona de exclusão aérea, Gaddafi não vai render-se".

Mesmo governantes árabes, como os dos países do Golfo, acabam de apoiar a hipótese.

"O Conselho Ministerial demanda que o Conselho de Segurança [da ONU] tome as medidas necessárias para proteger civis, incluindo uma zona de exclusão aérea', diz comunicado do Conselho de Cooperação do Golfo, formado por seis países do Golfo Pérsico, incluindo a poderosa Arábia Saudita.

Esse tipo de apelo torna-se crucial quando se sabe que qualquer iniciativa militar no caso da Líbia teria que passar pela aprovação do CS da ONU, no qual enfrentaria, em tese, forte resistência da China e da Rússia, dois países com poder de veto.

Se, no entanto, até países árabes reclamam uma intervenção da comunidade internacional em território de um país muçulmano, como a Líbia, pode haver uma mudança de posição de russos e chineses.

Não é, no entanto, o único obstáculo. Richard Haas, presidente do Council on Foreign Relations, a mais influente instituição de política externa dos EUA, duvida dos resultados da zona de exclusão aérea:

"Não há razão para acreditar que uma zona de exclusão aérea seria de fato decisiva. Temos todas as razões para acreditar que não seria, dado que aviões e helicópteros não são centrais para a vantagem militar do regime", escreveu Haas para o "Wall Street Journal".

É uma opinião que tem peso interno mas parece não estar tão bem informada como se poderia supor em face da posição que ocupa. Haas continua seu texto afirmando que "o regime poderia derrotar a oposição sem recorrer a aviões de ataque e a helicópteros artilhados, simplesmente explorando sua vantagem em termos de infantaria e de armas leves".

Pode ser, mas o fato é que a maré da guerra só começou a mudar --e assim mesmo está por se ver se é definitiva a reversão - a partir dos bombardeios aéreos.

Parece mais razoável a análise comparativa feita por "El País": "A capacidade de fogo do governo Gaddafi é infinitamente maior, mas carece de soldados e mercenários suficientes para lutar em todas as frentes em um país tão enorme --1,8 milhão de quilômetros quadrados. A situação dos insurretos é a oposta: sobram homens, mas seu armamento é esquálido".

A zona de exclusão aérea, em tese, daria maior equilíbrio à guerra. Mas para a iniciativa de eventualmente implementá-la pesa também o que chamei de "dilema de Sofia", em artigo no sábado para a Folha-papel, citando texto da revista eletrônica "Jadaliyya" (Transparência), editada pelo Instituto de Estudos Árabes de Washington:

"De um lado, a inação internacional em face das atrocidades na Líbia parece inaceitável. Do outro lado, o deplorável registro de anteriores intervenções internacionais inspira pouco entusiasmo", escrevem Asli Bâli, professor de Direito na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e Ziad Abu-Rish, candidato ao doutorado no Departamento de História da mesma universidade.

O impasse crescente só dá mais razão aos dois especialistas

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