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quarta-feira, 25 de maio de 2011

RELEMBRANDO O CARDEAL MAZZARIN

O que o cardeal Jules Mazarin — que nasceu Giulio Mazzarino, se naturalizou francês e morreu em 1661 — tem em comum com o incomparável Maquiavel, além da naturalidade italiana? A resposta está no Breviário dos Políticos, uma seleção de máximas do cardeal relançada pela Editora 34 em formato de bolso. Se não tem a popularidade — e a densidade — de O Príncipe, esse Breviário leva vantagem por não dar conselhos a um príncipe em particular. É um guia para aqueles que sonham conquistar o poder. Na edição brasileira, as máximas vêm precedidas de uma apresentação, assinada pelo político Bolívar Lamounier. E o prefácio de Umberto Eco é um aperitivo especialmente saboroso para o que vem a seguir. Os dois fazem a comparação inevitável com Maquiavel, para acentuar as diferenças e ressaltar os pontos convergentes.

Mazzarin sucedeu ao Cardeal Richelieu, o todo-poderoso ministro de Luís XIII, em 1642. Não tinha nem a classe nem a sabedoria de Richelieu, mas era esperto o suficiente para circular com desenvoltura pela Corte, a ponto de assumir a educação do jovem príncipe que o Mundo conheceu como Luís XIV. Vem dessa intimidade com o poder a matéria-prima para os conselhos que em 300 anos não perderam a atualidade.

No prefácio, Umberto Eco fornece a chave para entender o Breviário: “é que este livro nos descreve aquilo que o homem de poder já sabe. Talvez por instinto”, escreve. “Nesse sentido, não é só um retrato de Mazarin. Usem-no como indentificador de perfis para a vida cotidiana. Encontrarão aí muitas das pessoas que conhecem, por tê-las visto na televisão ou por tê-las encontrado no trabalho”.

Breviário dos Políticos poderia ter como subtítulo qualquer coisa como “um manual para dominar a arte do cinismo e da manipulação’. Visto por outro ângulo, é um manual de sobrevivência na selva da política, dos negócios e da vida em sociedade. Tanto quanto ensina a dissimular, Mazarin põe a nu os truques usados por quem aplica as suas máximas disseminadas pelo Mundo durante séculos. Nisso, a obra tem muito a ver com Maquiavel.

Em um artigo intitulado Máscaras na Corte, o historiador Voltaire Schilling traça um perfil irretocável do Cardeal Mazarin e de sua obra. “Promove, no lugar da ética, o ardil, a astúcia e o cinismo”, escreveu Schilling. “A palavra é um florete. Fina e flexível, se estocada no coração, mata. Mas também desvia o golpe. Perante os poderosos, é bom que seja pronunciada num tom que não revele a adulação, nem que o faça passar por um bajulador. Deve limitar-se ao sinuoso e escorregadio espaço que separa a lisonja do respeito”.

Máximas de Jules Mazarin

“Fala sempre com um ar de sinceridade. Faz crer que cada frase saída da tua boca vem diretamente do coração e que tua única preocupação é o bem comum e afirma, além disso, que nada te é mais odioso do que a bajulação”.
“Guarda sempre forças em reserva, a fim de que ninguém possa conhecer os limites de teu poder”.
“Quando um homem é atingido por um grande desgosto, aproveita essa ocasião para adulá-lo e consolá-lo. É com freqüência que em tais circunstâncias, que ele deixará transparecer seus pensamentos mais secretos e que mais bem oculta”.
“Desconfia de um homem que faz promessas fáceis. É geralmente um mentiroso e um pérfido”.
“Um bom meio de reconhecer um bajulador: conta-lhe que és autor de alguma ação ignóbil, fingindo orgulhar-te dela como de uma façanha. Se ele te felicita, é um bajulador; Um homem sincero pelo menos se absteria de um comentário”.
“Das pessoas muito preocupadas com sua aparência, nada a temer”.
“Arranja-te para que teu rosto jamais exprima nenhum sentimento particular, mas apenas uma espécie de perpétua amenidade”.
“Jamais confies a ninguém tuas inclinações íntimas, nem tuas repugnâncias, nem tuas timidezes. Jamais te envolvas te envolvas pessoalmente em ocupações medíocres: deixa-as a teus subordinados e não fales delas”.
“Não busques penetrar no segredo dos poderosos. Se eles forem divulgados, é de ti que suspeitarão”.
“Sempre que possível, evita fazer a menor promessa por escrito, sobretudo a uma mulher”.
“Deixa a outros a glória da fama. Interessa-te apenas pela realidade do poder”.
Jamais te rebeles contra as reprimendas de seus superiores, descabidas ou não. Em presença de outrem, escusa sempre os desvios de conduta deles e elogia-os em qualquer ocasião”.
“É preciso conhecer o mal para poder combatê-lo”.
“Age em relação a teus amigos como se eles devessem tornar-se um dia teus inimigos”.
“Numa comunidade de interesses, há perigo logo que um membro se torna demasiadamente perigoso”.
“Mantém sempre presente estes cinco preceitos: simula, dissimula, não confies em ninguém, fala bem de todo mundo e reflete antes de agir”.

Breviário dos Políticos, do Cardeal Mazarin.
Tradução Paulo Neves.

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